um ano sem instagram
Completei um ano sem conta no instagram, e posso dizer com tranquilidade que nada especialmente relevante mudou na minha vida, mas tudo mudou nas relações.
A decisão de desaparecer da vida das pessoas, porque é isso que significa deletar sua conta do instagram nos dias atuais, foi um processo longo, que começou com um desconforto sobre excessos temporários.
Estava cansada do ciclo de imagens e vídeos efêmeros sobre coisas extremamente superficiais, que somem em vinte e quatro horas. Nada fica, ao mesmo tempo em que tudo parece exagero.
O papo é que deletei porque encheu as paciências, sabe? Queria só viver a minha vida, mas parece que fui mais ousada do que o planejado, porque as pessoas entendem que você quer ficar longe delas, e não das plataformas. O que já aconteceu em outros contextos, como sair de grupo de whatsapp (nossa, não quero nem abrir essa caixa de pandora aqui).
A verdade nua e crua é: se você deleta sua conta do instagram, invarivalmente você se tornará um mistério para todos. Uma pessoa diferentona, reclusa, que não quer compartilhar.
Também é verdade que todos os seus amigos estão no instagram, e as conversas no whatsapp são para coisas mais importantes. Não tem tanta troca de amenidades, porque tá todo mundo na correria e parece que responder no whatsapp demanda uma certa atenção extra. Assim, saber o que fulano fez no final de semana ou uma dica de restaurante legal é papo de instagram. Na minha bolha é assim (já fazendo o disclaimer, porque sempre tem um que não pode só ler, tem que se identificar com tudo).
A gente foi segmentando as nossas relações por plataformas digitais sem nem perceber. E eu acho um absurdo, mas pelo visto sou uma voz um pouco dissidente, porque todo mundo continuou por lá. Ninguém debandou junto. Achei que meu levante ia gerar um manifesto contra as redes sociais, do tipo: vamos criar uma plataforma melhor, vamos revolucionar. Mas acho que o pessoal não tá tão incomodado. E tá tudo bem.
Eu que perdi com isso de querer viver offline em pleno 2025.
O fato é que, há alguns meses, comecei então a sentir falta de saber da vida digital dos meus amigos. Por exemplo, eu não faço a menor ideia do que eles fizeram nesse último ano. Só chega para mim o importante de verdade, tipo término de relacionamento, e olhe lá, porque às vezes é mais fácil compartilhar o luto por fotos do cabelo novo do que falar efetivamente sobre isso. Eu fico sabendo, mas bem menos. E confesso que, pra mim, na maior parte do tempo, tá tudo bem não saber dessas coisas. Eu vivo bem assim. Mas eu entendo que não é pra todo mundo.
Porém, não quero saber só quando algo muito relevante acontece, sabe? quero saber também do desimportante deles. O fato de ser sobre eles acaba sendo importante pra mim.
Porque é aquilo, por um lado, é uma paz saber de menos sobre as pessoas, mas, por outro, eu sinto que essas pequenas coisinhas fazem parte do exercício de nutrir as relações também. E isso implica estar presente também no digital. Em 2025 é assim, gente, fazer o quê. Afinal, ninguém guarda para falar depois, pessoalmente, o que é trivial. Entende? Porque nos encontros da vida real, mais escassos, não dá tempo de fazer um inventário detalhado de tudo o que aconteceu e se compartilhou.
Como disse, e é verdade, a minha vida não sofreu nenhuma grande disrupção quando deletei a minha conta no instagram. Não virei budista, não comecei a acordar às quatro da manhã, também não virei triatleta, não engravidei, não virei milionária. Minha vida seguiu normalmente. Digo isso porque sei que tem gente que acha que “sumir” da “internet” (a.k.a. redes sociais) significa que você tem obrigação de fazer algo útil com esse “tempo livre”. Eu já não era uma heavy user e, claramente, não era dada a superexposição da minha vida cotidiana, então não ter uma conta em rede social mudou pouco minha rotina. E também não deletei pra voltar depois parecendo que fui abduzida e passei por alguma experiência transformadora.
Acho que o que mais mudou de verdade foi a memória do celular. O rolo da câmera do iphone tem MUITO menos foto. Sério. Eu parei de registrar toda e qualquer bobagem e, mais interessante, quase não tem selfie. Confesso que virar a câmera para tirar uma foto minha soa um pouco estranho. O instagram estímula o nosso ego, né? Então faz todo sentido que eu tenha diminuído esses registros. Ainda que pudesse registrar para memória pessoal, sem compartilhar. O fato é que a gente faz mais essas coisas querendo compartilhar para o outro, convenhamos.
Sei lá, foi só isso aí mesmo. Meu chá de sumiço digital foi ótimo, mas quero voltar a compartilhar minhas coisinhas e saber das coisinhas dos outros também.



Muito bom o texto. Eu deixei as redes tem alguns anos e tenho ZERO remorso.
E passei a dar mais atenção às conversas no Zaps e tentar, sempre que puder, encontrar as pessoas pessoalmente. Abs
eu larguei do instagram justamente por não querer mais saber tanto da vida das pessoas, já que nunca compartilhei muito da minha por lá também. como resultado, quando encontro os amigos tenho muito mais coisa pra saber/contar e as conversas ficam mais interessantes. além disso, as comprinhas impulsivas diminuíram muito, já que vejo menos propagandas, e meu bolso agradece kkkkkkk